Do caipira ao balkan, Banda Gentileza lança disco neste sábado; leia entrevista
| End.: r. Fidalga, 98, Pinheiros, região oeste, São Paulo, SP. Classif. etária: 14 anos. | Leia mais no roteiro |
| As informações estão atualizadas até a data acima. Sugerimos contatar o local para confirmar as informações | |
MAYRA MALDJIAN
colaboração para a Folha Online
| Diego Cwb/Divulgação |
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| Banda Gentileza lança disco produzido por Plínio Profeta |
No melhor estilo indie de meter as caras na cena musical, a Banda Gentileza usou do boca a boca para divulgar seu primeiro disco --foram 1.300 downloads do álbum em um mês, sendo 400 nas primeiras 24 horas em que ficou disponível na internet. E é neste sábado (14) que o sexteto lança oficialmente as 12 bem faladas e ecléticas faixas de seu primeiro trabalho, no Espaço +Soma, em Pinheiros (região oeste paulistana), com direito à participação do produtor do CD, o músico e DJ Plínio Profeta.
Desculpa, mas não dá para rotular o som da Gentileza. Pela composição da banda e os instrumentos que cada integrante conduz dá para se ter uma ideia disso: Artur Lipori (trompete, guitarra, baixo e kazuo), Diego Perin (baixo e concertina), Diogo Fernandes (bateria), Emílio Mercuri (guitarra, violão, viola caipira, ukelelê e voz de apoio), Heitor Humberto (voz, guitarra, violino e cavaquinho) e Tetê Fontoura (saxofone e teclado) --uma mistura bem amarrada de regionalismos que vão do caipira ao balkan, do samba ao rock, do folclore à valsa.
Para saber sobre a trajetória da banda até os palcos, o Guia da Folha Online conversou com Heitor, o vocalista; leia a entrevista:
Folha Online - Como chegaram até Plínio Profeta ou como ele chegou até vocês?
Heitor - Quando decidimos que queríamos e precisávamos gravar um álbum de uma vez por todas, chegamos à conclusão que iríamos precisar de um produtor profissional. Isso porque queríamos uma grande qualidade no som e porque sabíamos que alguém precisaria dar uma lapidada nas músicas, organizar um pouco a bagunça, cortar exageros. Pensando em algum nome que pudesse topar essa empreitada, lembrei do Plínio, que havia produzido artistas que gostamos como Lenine, Pedro Luís e a Parede, Lucas Santtana, Katia B., Pavilhão 9 etc. Além de tudo, o fato de ele ter trabalhado com artistas bem diferentes foi algo que nos chamou a atenção, pois sabíamos que ele poderia sacar a nossa proposta de trabalhar com diferentes gêneros e referências dentro da música. Mandei um e-mail para ele, que pediu uma amostra das nossas músicas. Ele logo respondeu que poderíamos trabalhar juntos, que daria para fazer um trabalho bacana. Respiramos aliviados, marcamos uma data para a gravação e ficamos satisfetíssimos e muito felizes com o resultado de todo esse trabalho. Foram três meses de ensaios quase diários. Depois passamos quatro dias com o Plínio fazendo a pré-produção e ficamos mais um mês ensaiando para entrar no estúdio já com as mudanças sugeridas pelo Plínio. Aí foram dez dias dentro do estúdio de gravação, um mês de mixagem e mais uns dois meses até sair da fábrica.
Folha Online - De todas as referências, me chamaram atenção a caipira em "Teu Capricho, Meu Despacho" e as sonoridades do leste europeu em "Afinal de Contas". De onde vieram essas influências e essas letras?
Heitor - Essas influências acabaram entrando de forma muito natural. "Teu capricho, Meu Despacho" era uma balada muito simples. Um dia eu inventei de puxar um sotaque do interior e as pessoas gostaram bastante. Aí ela já ficou com uma cara de roça, que aumentou com uma guitarra slide. Quando o Emílio entrou na banda, em 2008, de pronto ele quis colocar a viola caipira. Não fosse o bastante, ainda fez uma segunda voz. Aí deu nisso. Todo esse processo demorou uns três anos! "Afinal de Contas" já nasceu de uma proposta de fazer uma música com uma levada mais balkan mesmo. Eu toco violino desde os sete anos de idade, então pensei que seria uma ótima música para finalmente utilizar o instrumento na banda. As letras dessas duas músicas são minhas. No disco tem outras duas do Artur e mais uma do Jota, o nosso antigo guitarrista. Com relação às minhas, o processo costuma ser meio demorado. Fico dias, às vezes meses, em cima de algumas frases, algumas palavras. Para mim, aquela história de 99% transpiração é bem verdadeira.
Folha Online - Bom, não dá para deixar de perguntar do samba...
Heitor - "Maior com Sétima" surgiu na época em que eu estava tentando aprender a tocar violão. Passei a ser adepto dos acordes maiores com sétima. Eles sempre soavam bem, sempre alegres. Dava a impressão de que você poderia cantar o que quisesse, bastava que a base fosse em cima daqueles acordes que não teria erro. Fiz o resto da letra pensando nessa ideia. Quando o Artur e a Tetê entraram na banda, em 2007, eles deram esse ar de quermesse para a música. E o Plínio, na gravação, transformou a nossa falta de suingue num samba bacana. Já "Preguiça" era uma música que até já foi rock, mas tinha cara de samba mesmo. Foi só usar um violão, um cavaquinho, um violão sete cordas e aquela batida. Pronto, mais um para o repertório.
Folha Online - Eu cresci ouvindo Xuxa, Marvin Gaye, Cartola, Michael Jackson, Chitãozinho e Xororó... e você?
Heitor - [Risos] Marvin Gaye? Que boa infância! Eu ouvi muita Xuxa também. Os LPs estão aqui em casa até hoje. Tinha um disco de cantigas de roda que ouvi demais. Mas os mais marcantes foram "Arca de Noé", do Vinícius, e "Casa de Brinquedos", do Toquinho, que rolavam sem parar. Tinha também uma fita com músicas dos Mutantes que era do meu pai e que eu cresci ouvindo. Aí depois vem aquela fase radiofônica, Skank, Cidade Negra [risos]. E claro, tem a fase Raimundos, Nirvana... Passei um bom tempo da minha pré-adolescência ouvindo Sepultura. Depois ouvi muito hardcore (mas nunca gostei de melódico). Depois de tudo isso, a gente mata os chefões de todas essas fases e começa a gostar de tudo.
Folha Online - E como isso tudo que você cresceu ouvindo te fez Heitor, o vocalista da Banda Gentileza?
Heitor - Acho que passar por diferentes fases foi importante para hoje ouvir coisas sem preconceitos. Quando a banda começou, por exemplo, eu gostava de berrar, de fazer um vocal mais rasgado. Hoje, quase não faço isso. Talvez um dia a gente grave um disco de rap.
Folha Online - Antes da Gentileza, o que Heitor fez na música?
Heitor - Aulas de violino. Toquei na Orquestra de Joinville (SC) por algum tempo. Quando me mudei para Curitiba, dei um tempo no erudito. Com um amigo, montei o Àhotten, uma dupla que experimentava as possibilidades sonoras de um violão, um atabaque, um berimbau e outras coisas que faziam som. As letras nos faziam rir. Tínhamos 13 anos. Depois montei uma outra dupla com outro amigo, aquilo que batizamos de "Tomara que você morra!". Era algo pré-punk-tosco. Escrevemos as letras em uns dois dias. Criamos as músicas durante um ensaio de uma hora de duração. Gravamos o resultado na hora seguinte. Vendemos 50 fitas demo.
Folha Online - Vocês são em seis e tocam 16 instrumentos, como administram isso no palco?
Heitor - Pois é, a gente se faz essa pergunta toda a vez que temos um show. Estamos precisando ensaiar apenas a logística de palco: guitarra pra lá, violino pra cá, pega o cavaquinho, troca pelo ukelelê, liga a viola caipira, dispara o loop. Tem sido complicado, até porque normalmente tocamos em bares com palcos pequenos. Mas o esforço vale a pena, essa variedade acaba ajudando pois o pessoal fica curioso esperando qual vai ser o próximo instrumento que vamos usar.
Folha Online - A banda sempre teve essa formação?
Heitor - Não! Começamos como um quarteto: duas guitarras (Heitor e Jota Borgonhoni), baixo (Diego) e bateria (Diogo). Em 2007 entrou o Artur tocando trompete, mas também ajudando na guitarra e no baixo. Pouco tempo depois, veio a dama da banda, Tetê, para tocar saxofone e Casiotone. Em 2008, o Jota saiu da banda e entrou o Emílio. Conheci o pessoal quando entrei na faculdade (Comunicação Social - UFPR). O Artur, a Tetê e o Diego estudavam lá também. O Diogo e o Jota faziam outros cursos, mas eram primos do Artur, com quem tinham uma banda. O Emílio é engenheiro e apareceu na turma depois por alguns amigos em comum.
Folha Online - De onde veio o nome Gentileza?
Heitor - Era uma piada que não era pra ter sido levada a sério. No começo, era o Heitor tocando as músicas dele. Depois uma banda acompanhando o Heitor tocando as músicas dele. Nem havia a pretensão daquilo virar realmente uma banda. Um dia, durante um show, falei brincando no microfone "essa é a Banda Gentileza". Achei que ninguém tinha prestado muita atenção. Mas quando terminou a apresentação, vieram dizer "muito legal esse nome 'Heitor e Banda Gentileza'". Respondia que era apenas uma brincadeira, que aquele não era o nome da banda, mesmo assim insistiram que era um bom nome. Acabamos adotando, já que nem sabíamos o que ia acontecer depois. Aí ficou. Quando gravamos o álbum, pedi para entrar na banda e felizmente o pessoal me recebeu de braços abertos. Agora é apenas "Banda Gentileza".
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